terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Os cinco.

    Desnorteada. Tendo de escolher algum dos cantos de uma tão doce vida que tive. Faz tanto tempo, sequer lembro quanto. Porque agora eu não posso ocupar todo o espaço. Preciso me contentar com a estranheza de uma parte daquele todo do qual um dia me fiz feliz. Mas não é algo tão fácil. Como ser? Já tivera meus quatro cantos e agora apenas um. O que me sobrou para escolher, para onde eu menos migrava ou migraria, se sempre alternativa eu tivesse. Ali onde eu guardara tudo o que não precisei, tudo que me era estragador de alegria. Todas aquelas coisas em um canto escuro, porque enxergá-las seria mais medonho do que viver sem a parte de dentro. Se ao menos eu pudesse optar, iria para aquele canto da parte sul, o direito. Lá eu passei os primeiros anos, toda a inocência guardada em um único lugar. Mas eu não podia. Só não podia, era simples. Simples como o sumir dele ao visitar do som de meus passos. Ruidosos, pois barulho era um estado de consequência ao peso de mim. E você, onde está? Vocês, onde estão? Eu não encontro. Essas inutilidades fazem chover, chuva de olhos. Não tenho janela, bem que eu queria. Acho que seria a única forma de respirar sem esforços. Porém, esses vazios rancorosos me ocupam o local onde colocá-la. Já ouviu dizer que cantos são pequenos? Vai ver é porque ninguém enxerga a infinidade do meu. Dos meus. Eu gosto de levar a vida ao infinito das coisas. Se minha bondade foi infinda, a maleficência também há de ser. E a contradição me é sem fim até aqui, vida recém-amarga? Por que se este maldito canto é interminável, ainda sufoco por plena culpa dessas paredes espessas? Penso que seja problema meu e não do canto: Talvez, por falta de pulmões. Pensando bem, o tal problema é todo meu. Havia de ser, é claro. Esse canto não me seria o único disponível se eu não fizesse desgastados todos os outros. Também não me seria empilhado de todos os fardos que passei os anos não querendo enfrentar. Mas por outro lado, não me sinto nenhum pouco culpada por ter vivido minha incrível atmosfera harmônica. Tonta, quem sabe. Mas os cantos ensinam. Deve ser por isso que a professora me tirou da amplidão e me mostrou-o aos cinco anos. Gosto do número cinco. Porque, talvez, a minha vida não tenha quatro ou três. Tenha cinco. Cinco cantos. E o quinto, não há de amedrontar-me. Parece comigo: Um querido infinito de surpresas.

Um comentário:

  1. tenho tentando ignorar o meu quinto canto... é o mais obscuro e confuso, e ao mesmo tempo exerce sobre mim uma atração inquietante... agora só basta livrar-me da covardia de enfrentá-lo...

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