sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

  Adaptas, tu. Adapto, eu. Adaptamos, nós.

   A aula se fazia insuportável. Se ainda conseguisse me dopar de sono, seria bom. Mas nem isso a infeliz faria por mim. E a minha atenção não queria se prender ao assunto e nem ao quadro. Parecia mais uma daquelas crises de inquietude, despercebidas por externos. O meu olhar e corpo eram estáticos, fácil enganar que de tudo entendia ali naquele tagarelar civilizado do professor. Mas o meu tremer, balançar, mastigar e batucar de dentro encheria de medo a qualquer um. "Ei, faz isso aqui pra mim?!" Eu juro ter ouvido, mas fingi que não. Talvez, porque por dentro as coisas se perdiam em meio à multidão de inconstâncias. Um tom mais alto, um cutucar de dedo em braço. "Mari, faz isso aqui pra mim. Pode?". E então, os movimentos e barulhos de dentro cessaram-se por si sós. O que me trouxe o pior estranhamento do dia ou até da semana. Foi inevitável o meu girar rápido de tronco na cadeira e acabar derrubando o livro do garoto no chão. "Oi. Desculpa! Fazer isso... Não, acho que não sei fazer.". Uma voz alheia debochava à esquerda. "A Mari é a menina mais estabanada que conheço, sabia?" E eu ri, só para não perder a piada. Minto. Para falar a verdade, eu nem sabia porque ria por fora. E dentro... Eu simplesmente era sólida por ora. Aí ele me empurrava o livro, dizia para eu tirar algo dali e adaptar. E adaptar era a coisa mais incrível que já consegui fazer. Mudar, consertar, revisar. Mas não a vida, essa eu nunca tentaria. Ela já se fazia diferente a cada dia, e sem esforço algum. Aposto que se eu fosse me meter, viraria um garrancho de quando eu era criança de 4 anos. Se bem, que isso não importava muito. Até porque a infância não fora uma das piores fases. "Mas você é a melhor que conheço para o trabalho." Ao rápido término do favor, um sorriso da parte de dentro. Alguém pode ter todo o desconserto de uma vida, e ainda assim ser a perfeição para algo a todo instante.

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